O GT Diversidade Sexual e de Gênero da Subsede Centro-Oeste, vinculado à Comissão de Direitos Humanos do CRPRS, promoveu em 29/01 o evento “A lucidez das (trans)sexualidades”, em Santa Maria.
O encontro teve como objetivo promover um debate sobre a diversidade sexual e de gênero na região, a partir das resoluções 01/2018, que estabelece normas de atuação para as/os psicólogas/os em relação às pessoas transexuais e travestis e 10/2018, que dispõe sobre a inclusão do nome social na carteira de Identidade Profissional, valorizando as identidades travestis e transexuais.
A atividade serviu como forma de orientação para as/os profissionais da Psicologia e sociedade, agindo no enfrentamento ao preconceito e discriminação sexual e de gênero.
O conselheiro do CRPRS Thiago dos Santos Alves fez a abertura inicial apresentando o Grupo de Trabalho Diversidade Sexual e Gênero da Subsede Centro-Oeste, destacando a trajetória do GT e a sua aproximação com a Comissão de Direitos Humanos. A psicóloga Sofia Favero, convidada que debateu sobre as resoluções do Conselho Federal de Psicologia (CFP) destinadas a transexuais e travestis, apresentou uma abordagem social crítica acerca da despatologização dessas identidades e o trabalho da psicologia frente ao cuidado de pessoas trans.
O evento teve como parceiros o coletivo Voe, a Seção Sindical dos Docentes da Universidade Federal de Santa Maria (Sedufsm), Homens Trans em Ação (HTA), ONG Igualdade, Política Estadual de Saúde Integral LGBT, Comissão Especial Diversidade Sexual e gênero da OAB/RS e Grupo de Vivências LGBTI+.
Confira a entrevista com a palestrante do evento, psicóloga Sofia Favero
Sofia é ativista trans ligada à Associação e Movimento Sergipano de Transexuais e Travestis e representante do CRPRS no Comitê Técnico de Saúde LGBT do Rio Grande do Sul. Suas pesquisas são voltadas para temas como gênero, sexualidade, epistemologia, infância, diagnóstico e patologização.
Qual o papel da/o psicóloga/o na despatologização das identidades trans e no cuidado a essa população?
Muito tem sido perguntado em relação a qual seria a atribuição de profissionais de psicologia com a população trans/travesti. No meio desse movimento, tenho observado diversas/os psicólogas/os que, interessadas/os em dar uma resposta à pergunta, acabam criando “formas adequadas” de atendimento. Entretanto, ao fazerem isso, também engessam a figura da transexualidade. Ora, somente é possível saber o que “fazer” se partimos do pressuposto que o outro é previsível. E para isso temos uma série de estereótipos em nossas mãos; um sujeito que sofre, que está inconformado com o espelho, que vive uma relação conflituosa com a autoimagem, que prefere a cor rosa no lugar da cor azul. Enfim, são inúmeros os recursos sexistas e psicopatológicos que são lançados quando a pergunta “o que faremos?” é acionada. Penso, em contrapartida, que não se trata tampouco de respondê-la com um manual oposto, como se devido à literatura médica estar negativando o gênero “diferente”, devêssemos positivá-lo. Não, eu também não sei qual é a função da psicologia, e digo isso pensando que o reconhecimento de nossa fraqueza está justamente aliado a uma compreensão ampla de transexualidade, que não situa tais sujeitos como blocos, indivíduos universais, cópias uns dos outros. Se assumimos que as pessoas trans e travestis são múltiplas, esse entendimento deve nos direcionar a um desamparo que é essencial à política psicológica. Ressalto, entretanto, que essa não é uma sugestão para que profissionais de psicologia deixem de buscar informações, deixem de se especializar ou de se capacitar, mas que tenham em mente, quando se questionarem a respeito de seus papéis, que aquele que se apresenta para nós não é a representação de um coletivo, mas alguém que deve deter condição de sujeito. Para fazermos isso, a psicologia dispõe de uma série de mecanismos (sejam eles clínicos ou sociais).
De que maneira você avalia o modo binário que a sociedade ainda trata a questão de gênero? Como podemos mudar isso?
Existem muitos binários que compõem a dinâmica do cotidiano. Apesar de estar em jogo um gênero que é visto supostamente como opositivo, masculino e feminino ou marte e vênus – que precisam ser até de planetas diferentes -, acredito que a grande questão a ser rompida dentro da psicologia está na forma com que ensinamos que gênero está na mente e que a sexualidade está no genital, pois esse é um dos binários que mantêm a transexualidade ligada a uma leitura de doença mental. Por ser uma questão mental, aparentemente, pelo menos, a transexualidade precisaria ser avaliada pelos profissionais psi (psicólogas/os, psiquiatras, psicanalistas), fazendo com que não seja necessário romper apenas as diferenças entre homens e mulheres, que produzem desigualdades, mas como separamos corpo de gênero, corpo de sexualidade. Uma vez que o gênero deixasse de ser uma questão do “mundo interno do sujeito”, ele passaria, por exemplo, a caminhar paralelo a uma compreensão de corpo que é político. Em outras palavras, poderíamos mudar isso, o modo binário com que as sociedades ocidentais interpelam travestis e pessoas trans, a partir do momento em que lidamos com a produção social da vulnerabilidade, retirando dos sujeitos uma culpabilização “subjetiva” que nos impede de formular um projeto de psicologia ligado a mudanças estruturais.
Qual sua avaliação sobre o acesso à Saúde e às Políticas Públicas pela população trans? O que precisa ser melhorado?
A saúde trans, digamos assim, tem caminhado por um percurso bastante interessante com a chegada dos ambulatórios destinados a propor uma concepção de assistência integral, desligando as identidades trans e travestis de uma tradição médica que as relacionava a alguma cirurgia. Agora, é possível pensar um tipo de demanda ou tratamento que não está centralizado em intervenções cirúrgicas, mas que também busca estabelecer alguma distância em relação aos diagnósticos, tendo em vista que a transexualidade não é diagnosticável. Algo que digo pensando que os diagnósticos que pretendem avaliar o gênero na verdade estão avaliando paradigmas culturais relacionados tanto à feminilidade quanto à masculinidade. Dessa forma, o acesso à saúde não deve ser perpassado por uma avaliação pautada nos níveis de mulheridade, por exemplo, que uma paciente é capaz de apresentar, uma vez que tais níveis são há muito criticados por diversos setores feministas, interessados em empreender questões a um tipo de ciência que “biologiza” a diferença social entre os sexos. Dito de outro modo, as pessoas trans e travestis enfrentam (quando enfrentam) outras questões mais urgentes, como abandono familiar, evasão escolar, transfobia, violência, desassistência, etc. Algo que precisa nos levar a reflexões sobre saúde que não digam respeito somente a um “fazer” hospitalar, pois isso significa entender a transexualidade como uma questão médica, não como uma questão de direitos humanos.
Como a Psicologia pode contribuir no enfrentamento do preconceito à população trans?
Penso que a psicologia, para além de contribuir, tem muito a se beneficiar com o enfrentamento da transfobia. A intensa entrada de pessoas trans e travestis no quadro de psicólogas/os tem sido útil para que a profissão considere outros horizontes éticos, talvez mais próximos de um mundo possível para quem está inconformado com destinos rígidos que são dados logo no nascimento. A transexualidade é, desde sempre, um questionamento aos roteiros sociais. Por esse ângulo, acredito que a psicologia tem sido deslocada, a partir das psicólogas travestis, por exemplo, a pensar um corpo que não precisa cumprir com determinadas expectativas hegemônicas. Assim, os modos de contribuição dessa ciência psicóloga perpassam uma maior escuta acerca do que as pessoas trans e travestis têm produzido, pois não basta perguntar “o que a psicologia acha disso?” sem considerar o que nós, de fato, temos a dizer, também, acerca da saúde mental.