Quem é o homem do “dia do homem”? Quantos homens cabem nesse suposto homem? O que é “ser” homem? Tais interrogações (e muitas outras) estão no repertório dos modos de subjetivação contemporâneos e afetam a constituição das masculinidades. Sabemos que desde o final da década de 1990 foi criado pela ONU o “Dia Internacional do Homem” o qual foi tido pela UNESCO como uma “excelente ideia para equilibrar os gêneros”. Aqui fica a questão: para que(m) serve essa “excelente ideia”?
Entendemos que essa “data comemorativa” está capturada pela subjetividade capitalística, cujas produções são definidas por Guattari & Rolnik (2005, p. 78) como “o que nos chega através da mídia, da família, de todos os equipamentos que nos rodeiam e que não são apenas ideias […]. São sistemas de conexão direta entre, de um lado, as grandes máquinas produtoras e de controle social e, de outro, as instâncias psíquicas, a maneira de perceber o mundo”. Neste sentido, nossa provocação segue dois vetores: um que visa questionar a apropriação da(s) mídia(s) publicitária(s) por um modelo específico de homem e, outro que problematiza o próprio “ser” homem como sendo algo difícil de definir nesses “tempos líquidos” de identidades difusas (e confusas).
A atual propaganda veiculada nos meios de comunicação midiáticos supõe – e constitui – determinado modo de ser homem e, apesar dos avanços em pesquisas que problematizam os efeitos do que é veiculado pela mídia na sociedade, ainda temos um “padrão de homem” que aparece nas peças publicitárias: branco, classe média/alta e heterossexual. Isso nos leva a refletir sobre o quanto somos “alimentados” pelas imagens que vemos e, o quanto também ajudamos a produzir toda uma maquinaria da desigualdade se não questionamos e não replicamos tais questionamentos na micropolítica do cotidiano. Em outras palavras, se não pensamos sobre quem está ausente das peças publicitárias (a mulher, a criança, a/o negra/o, a/o homossexual…) e também, de que forma se produz tal ausência, estamos produzindo a favor de uma subjetividade capitalística, isto é, circunscritos a modos de subjetivação dominantes e aprisionantes. Em resumo, parece ser importante vermos uma propaganda para além de uma “simples propaganda/homenagem” alusiva ao dia do homem, tentando apreender todo o universo semiótico presente nela.
Quanto à questão de “ser homem” evocada pela própria data comemorativa, entendemos que essa definição deva ser remetidas mais à noção de singularidade do que a de identidade. Podemos entender o enunciado “eu sou homem” como uma captura identitária que desconsidera todas as outras formas de expressão da singularidade que podem vir a compor este mesmo ser homem (um devir mulher, criança etc). A perspectiva da singularidade define a concepção de homem como muito mais instável e fluida, tendo a ver com todos os elementos que constituem e fazem funcionar esse sujeito homem, bem como aquilo que também não tem.
Para finalizar e no intuito de produzir relações mais igualitárias talvez possamos começar tirando o peso que as noções fixas produzidas pelas categorias de homem (e mulher etc) tem sobre a nossa vida e, seguindo Foucault, percebermos que somos “mais livres do que pensamos que somos”.
Izaque M. Ribeiro e Pedro J. Pacheco (Psicólogos)
Entendemos que essa “data comemorativa” está capturada pela subjetividade capitalística, cujas produções são definidas por Guattari & Rolnik (2005, p. 78) como “o que nos chega através da mídia, da família, de todos os equipamentos que nos rodeiam e que não são apenas ideias […]. São sistemas de conexão direta entre, de um lado, as grandes máquinas produtoras e de controle social e, de outro, as instâncias psíquicas, a maneira de perceber o mundo”. Neste sentido, nossa provocação segue dois vetores: um que visa questionar a apropriação da(s) mídia(s) publicitária(s) por um modelo específico de homem e, outro que problematiza o próprio “ser” homem como sendo algo difícil de definir nesses “tempos líquidos” de identidades difusas (e confusas).
A atual propaganda veiculada nos meios de comunicação midiáticos supõe – e constitui – determinado modo de ser homem e, apesar dos avanços em pesquisas que problematizam os efeitos do que é veiculado pela mídia na sociedade, ainda temos um “padrão de homem” que aparece nas peças publicitárias: branco, classe média/alta e heterossexual. Isso nos leva a refletir sobre o quanto somos “alimentados” pelas imagens que vemos e, o quanto também ajudamos a produzir toda uma maquinaria da desigualdade se não questionamos e não replicamos tais questionamentos na micropolítica do cotidiano. Em outras palavras, se não pensamos sobre quem está ausente das peças publicitárias (a mulher, a criança, a/o negra/o, a/o homossexual…) e também, de que forma se produz tal ausência, estamos produzindo a favor de uma subjetividade capitalística, isto é, circunscritos a modos de subjetivação dominantes e aprisionantes. Em resumo, parece ser importante vermos uma propaganda para além de uma “simples propaganda/homenagem” alusiva ao dia do homem, tentando apreender todo o universo semiótico presente nela.
Quanto à questão de “ser homem” evocada pela própria data comemorativa, entendemos que essa definição deva ser remetidas mais à noção de singularidade do que a de identidade. Podemos entender o enunciado “eu sou homem” como uma captura identitária que desconsidera todas as outras formas de expressão da singularidade que podem vir a compor este mesmo ser homem (um devir mulher, criança etc). A perspectiva da singularidade define a concepção de homem como muito mais instável e fluida, tendo a ver com todos os elementos que constituem e fazem funcionar esse sujeito homem, bem como aquilo que também não tem.
Para finalizar e no intuito de produzir relações mais igualitárias talvez possamos começar tirando o peso que as noções fixas produzidas pelas categorias de homem (e mulher etc) tem sobre a nossa vida e, seguindo Foucault, percebermos que somos “mais livres do que pensamos que somos”.
Izaque M. Ribeiro e Pedro J. Pacheco (Psicólogos)