Dando sequência ao Seminário Saúde e Cidadania de Pessoas Trans realizado em janeiro de 2020, em Pelotas, aconteceu, nos dias 08, 09 e 10/02, a segunda edição deste evento. Com o tema “Corpos Potentes, Vidas Precárias”, a atividade se propôs a gerar inquietações e dialogar sobre essas questões considerando a perspectiva dos movimentos sociais, da formação de profissionais da saúde e das políticas públicas, especialmente Saúde, Assistência Social e Educação. “Essas políticas têm papel estratégico na garantia de direitos. A transfobia e a falta de conhecimento acabam se tornando obstáculos na vida das pessoas trans. Precisamos refletir sobre como isso acontece, quais são as falhas nessas práticas cotidianas”, explicou a conselheira Cristina Schwarz, presidenta da Comissão de Direitos Humanos do CRPRS, na abertura do evento.
O Seminário foi promovido pelo CRPRS – por meio da Comissão de Direitos Humanos e do Núcleo de Gênero, Raça e Sexualidade da Subsede Sul –, Homens Trans em Ação (HTA-RS), Girassol – Amigos na Diversidade, Conselho Estadual de Promoção dos Direitos LGBT do RS, Núcleo de Estudos e Pesquisa É’LLÉKO – UFPEL/UFRGS e Coletivo Trans Juliana Martinelli.
A abertura do Seminário contou com performance artística da Sá Biá, artista e intérprete na coletiva Ruidosa Alma. Em seguida, Jaqueline Gomes de Jesus (CRP 05/49337), psicóloga e professora no IFRJ, doutora em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações pela UnB e integrante da Comissão de Direitos Humanos do CFP, resgatou sua história de articulação, unindo práxis, teoria e militância. Para Jaqueline, é preciso pensar identidade de gênero considerando as complexidades que envolvem esse conceito. Ela abordou as diferenças entre personalidade, identidade e identidade social, destacando o paradoxo citado por Gordon Allport: “somos todos iguais, porém diferentes e únicos”. E como lidar com essa diversidade? “Entendendo que diverso não é só o outro, somos todos nós. Respeitando as dimensões da diversidade cultural”, afirmou a convidada. Citou também a necessidade de se debater sobre o acesso à educação pelas pessoas trans e a relação entre o modelo de educação vigente e a transfobia.
Leonardo Peçanha, professor, pesquisador e ativista, especialista em gênero e sexualidade, mestre em Ciências da Atividade Física, membro do Fonatrans, Liga Transmasculina Carioca e do Projeto Luto do Homem, falou sobre os desafios da saúde trans masculina. A diversidade dos corpos trans, suas ressignificações e a maneira subjetiva como cada um lida com seu corpo foram alguns pontos destacados. “Temos que pensar em uma saúde que contemple todas as pessoas, com suas especificidades corporais, mas que não normatize de maneira a restringir atendimento à saúde de qualidade”. A dificuldade de acesso às políticas de saúde pela população trans prejudica o atendimento de saúde de qualidade e de forma integral.
Na sequência do Seminário, Maria Luísa Garcia Gelatti, vice-presidenta do Conselho Estadual LGBT do RS, integrante da coordenação do movimento Girassol – Amigos na Diversidade de São Borja. Como mulher transexual, militante, ativista pelas causas Lgbtqia+ e trabalhadora do ambulatório Lgbtqia+ de São Borja, trouxe sua vivência na fiscalização de políticas públicas para essa população. “Muitas pessoas buscam o ambulatório e não retornam. Por isso, o acolhimento é muito importante. Os profissionais da Saúde precisam entender o que é ser travesti, o que é ser uma pessoa trans e acolher”. Perguntar como a pessoa se identifica, usar o artigo certo são iniciativas simples, mas importantes para essa população se sentir acolhida. O histórico de luta iniciado pelas travestis e a crescente ocupação de espaços, incluindo lugares de poder, são aspectos importantes na busca pela garantia de direitos. “A Saúde nos exclui e nos mata. Precisamos fiscalizar e cobrar do Governo saúde de qualidade”.
“Precisamos pensar e nos implicar como assumimos o enfrentamento dessa realidade. É um trabalho de força e de resistência”, destacou Cristina no encerramento do primeiro dia de Seminário.
Saúde Mental e Práticas Interdisciplinares
No segundo dia de atividade, as/os participantes participaram de rodas de conversa, divididas em dois eixos: “Eixo I – Triste, louca ou má? – Saúde mental de pessoas trans” e “Eixo II – Amar e mudar as coisas: práticas transdisciplinares em ambulatórios trans”.
No terceiro e último dia de Seminário, a conselheira Miriam Cristiane Alves foi a mediadora da mesa “Gente certa é Gente aberta”, que contou com a apresentação de performance artística de Rucka de Lacaia, levita, performer, profetisa e poetisa.
Lins Roballo, mulher negra trans, assistente social (Unipampa São Borja), especialista em violência intrafamiliar (Unipampa São Borja), especialista em Comunicação Não Violenta (Unipampa São Borja), mestre em Ciências Sociais (PUCRS), coordenadora da ONG Girassol e vereadora em São Borja, apresentou as reflexões feitas no Eixo I. “Fizemos uma reflexão sobre nossas identidades e os lugares que nossos corpos ocupam na sociedade. Discutimos sobre rupturas da cisheteronormatividade, do machismo, do patriarcado e o quanto outros corpos e outras visões afetam nossa afirmação social, nosso caminho”. Nesse sentido, rupturas e cisões são levadas para o campo da loucura. Apesar de os corpos serem importantes na construção identitária, Lins ressalta o quão multifacetadas podem ser essas identidades. “Precisamos entender que não precisamos dar conta da materialização da cishetronormatividade, com dor, com cortes. Temos que entender nossas vivências com liberdade. Pensar corpo e estrutura a partir de nosso interior e não dar conta do padrão do desejo da heteronormatividdade”.
Acompanhando o Eixo II “Amar e mudar as coisas: práticas transdisciplinares em ambulatórios trans”, Felipe Reis falou das dificuldades do acesso à saúde integral pelas pessoas trans. Felipe é homem negro e trans, estudante de Ciências Sociais da UFPEL, compõe HTA-RS, FONATRANS e Núcleo de Estudos e Pesquisas ÉLÉÉKO UFPel/UFRGS e membro do CEP-Psico-UFRGS. Para as/os participantes desse Eixo fica a questão: será que essas violações se dão por falta de dispositivos legais ou por falta de pro-atividade profissional, políticas especificas e disposição dos profissionais em querer atender o diferente? Muitas pessoas trans são encaminhadas a ambulatórios LGBTs para demandas cotidianas, o que mostra desconhecimento e falta de preparo das/os profissionais que atuam nos serviços de Saúde.
Rafa Ella Brites, mulher transvestigênere, estudante de ciência política na Unipampa e assessora parlamentar na Câmara de Vereadores de São Borja tentou buscar pontos em comum nas discussões dos dois eixos. Para isso, fez uma contextualização da formação histórica e política da sociedade, sua organização simbólica e subjetiva, e a influência da colonização como força motriz dessa constituição. “O que falta para que profissionais compreendam acolher essas demandas de grupos minoritários? Talvez o caminho esteja na formação”.
Para Miriam Alves a lógica colonial está impregnada no modo como as políticas públicas são constituídas. “Nossa luta é pela transformação da sociedade, romper com as políticas de concessão”. Para ela, o momento é de unir forças: movimentos sociais, entidades como o CRPRS. Assim, como encaminhamento, as/os participantes propuseram a criação de um grupo de estudos e a organização e sistematização de material reunindo todo conteúdo apresentado na primeira e na segunda edição do Seminário.
Assista aos vídeos das mesas de abertura e encerramento do II Seminário Saúde e Cidadania de Pessoas Trans:
Mesa de abertura: Corpos Potentes, Vidas Precárias
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Mesa de encerramento: Gente Certa é Gente Aberta
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